Total de visualizações de página

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Literatura Portuguesa Modernismo parte II

Teixeira de Pascoaes


            Figura central do Saudosismo, é considerado dos maiores poetas da primeira metade do século XX em Portugal. Traz pouca influência do Simbolismo e, ao mesmo tempo, alheia-se das novas inquietações que farão o Modernismo, justamente por afinar-se com o espírito romântico. Para ele, tudo se concentra num sentimento difuso, vago e agridoce, da Saudade, de que deriva um estado místico e metafísico ao mesmo tempo, porque a Saudade tem nele um sentido etéreo, inespacial e intemporal. É poeta comparado a grandeza de Camões e Antero de Quental, segundo alguns críticos mais entusiastas. Escreveu extensa obra em poesia, prosa (biográfica e doutrinária) e teatro.
            Marânus é sua obra mais conhecida. Constitui-se de dezenove cantos, composto em decassílabos brancos e rimados. O tema é Marânus, figura mítica entre visionário e iluminado, que trava contínuos diálogos com símbolos ou seres sobrenaturais, como Eleonor, a Saudade, a Primavera, a Montanha, o Outono, etc. Veja um trecho de Marânus.

Marânus e Eleonor



Marânus era o ser que divagava,
Consigo, pelo mundo solitário.
A sua própria alma o alimentava
E dava-lhe a beber das suas lágrimas.

Empecera-lhe a noite. E, desde então,
Rodeado de espantos e de assombros,
Vive numa perpétua inquietação.

Falho de ânimo e pobre de esperança,
Apenas o salvou da negra morte
Esta misteriosa simpatia,
Que, semelhante à tua lira, Orfeu,
Às feras enternece e a luz do dia!
Atrai as selvas virgens que murmuram,
Os inertes penedos taciturnos
E as estrelas o céu que nos procuram,
Com seus olhos de eterna claridade.



            Neste poucos versos pode-se perceber a substância da tradição poética portuguesa: uma faceta romântica (e, portanto, Simbolista) e outra realista.

O Orfismo


Em 1915, surge outra revista, a Orpheu, que foi a mais importante, embora tenha tido apenas dois números (trimestrais), sendo que o terceiro não chegou a ser impresso. Nela foram publicados textos mais voltados para a concretização dos novos ideais estéticos (que floresciam em toda a Europa) que influenciaram as gerações seguintes.
Orpheu é o resultado da convivência de jovens artistas que se reuniam em cafés de Lisboa e buscavam trocar informações e experiências, cujos objetivos eram a revolução e a atualização da cultura portuguesa. Nessa revista se vê, ao mesmo tempo, valores decadentistas (Simbolistas) e vanguardistas (Futuristas e Cubistas). Dentre outros, participaram da revista Orpheu Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luís Montalvor e o brasileiro Ronald Carvalho.


Mário de Sá-Carneiro


            Nasceu em Lisboa em 1890. Filho único de um engenheiro, perdeu a mãe com dois anos de idade. Terminados os estudos secundários, segue para Paris em 1912, com a intenção de seguir o curso de Direito. Nesse mesmo ano, publica um livro de contos, Princípio, e começa a escrever poesia. Em 1914, de férias em Lisboa, junta-se a Fernando Pessoa e aos demais jovens que viriam a lançar o Orpheu (1915), e publica Dispersão e A confissão de Lúcio. De regresso a Paris, entra numa profunda crise financeira e moral que o acaba arrastando ao suicídio, em 26 de abril de 1916. Escreveu poesia (Dispersão, 1914; Indícios de Oiro, 1937), prosa poética (Princípio, 1912; Céu em Fogo, 1915; A confissão de Lúcio, 1914) e teatro (Amizade, 1912, em colaboração com Tomás Cabreira Jr.).

       Dispersão




Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).


O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismastes nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus
Mas fechou-se saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projeto:
Se me olho a um espelho, erro –
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada.
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim choro, da vida,
A morte da minha alma.(...)



            Mário de Sá-Carneiro, oposto a Fernando Pessoa, cultiva o subjetivismo, o egocentrismo. Dispersou-se no labirinto de seu próprio eu, como se nota no fragmento poético acima. A singularidade de sua obra consiste no sentimento de estranheza e inadaptação do eu frente ao mundo, traço presente tanto em sua obra em prosa quanto em verso, refletindo a si mesmo.

QUASE




Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
 ............................................................ Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



Nenhum comentário: